AS ÁGUAS NA FRONTEIRA OESTE


Vivemos em uma região privilegiada em relação a disponibilidade de recursos hídricos. A Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul é uma das regiões com maior disponibilidade hídrica do Brasil. Chove mais de 1.600 mm por ano em média nos municípios que compõem nossa região. Esta quantidade de chuva é um indicador de disponibilidade de água importante, mas considerando ainda que temos em média mais de 60% do território com a vegetação similar a nativa antes das colonizações europeias através das pastagens naturais e introduzidas, esta água também alimenta os ciclos naturais que fornecem serviços ecossistêmicos mantendo qualidade de vida às populações e ainda infiltrando no solo e subsolo recarregando uma das reservas de água subterrânea mais importantes de nosso planeta – o Aquífero Guarani. Segundo os últimos estudos disponíveis o aquífero está bem conservado em nossa região e nos últimos 20 anos se tornou a principal fonte de abastecimento de águas às populações de nossas cidades. Os serviços de abastecimento de água de Alegrete e Quaraí por exemplo captam praticamente 100% da água através de poços profundos que buscam o recurso hídrico de excelente qualidade para disponibilizar à população. Mas enquanto estas duas cidades ainda mantêm suas instalações de tratamento de água superficial, Manoel Viana nunca teve este recurso e é totalmente abastecida por poços profundos que captam a água do Aquífero Guarani.

Recente estudo realizado durante o diagnóstico do Plano de Bacia do Rio Ibicuí estabeleceu os níveis de qualidade da água de vários trechos da bacia e, na grande maioria, as águas estão alinhadas nas classes 1 e 2 sendo as de melhor qualidade segundo a norma do Conselho Nacional do Meio Ambiente que regulamenta as possíveis classificações de águas superficiais nas classes de 1 a 4 sendo a 4, a de pior qualidade e a 1, a melhor para um rio. Para que o leitor tenha um parâmetro as classes 1 e 2 são adequadas para o contato primário, isto é, permitem a balneabilidade. Somente em algumas épocas do ano em alguns pequenos trechos de afluentes do rio Ibicuí são classificados em Classe 3 o que não permite o banho em suas águas. Devido à falta de tratamento de esgoto doméstico na cidade de Alegrete, as águas do rio Ibirapuitã chegam a cidade em Classe 1 e deixam a área urbana em Classe 3. Significa que não é aconselhável para a saúde humana tomar banho no rio Ibirapuitã em alguns quilômetros depois de sua passada pela cidade de Alegrete. A boa notícia é que devido a disponibilidade de água dos afluentes do Ibirapuitã a jusante de Alegrete, após percorrer aproximadamente 10 km, devido a diluição proporcionada por estes, as águas passam a ser Classe 1 novamente permitindo o contato primário e a balneabilidade.

Já no rio Ibicuí devido a constante afluência das águas de inúmeros rios contribuintes, suas águas se alinham na maior parte do tempo nas Classes 1 e 2 permitindo quase todos os usos nobres previstos na regulamentação do CONAMA 357.

Pensando na outra parte das áreas dos municípios que não são campos naturais ou pastagens introduzidas, a região da Fronteira Oeste possui uma infraestrutura de manejo de água para irrigação importante. São milhares de pequenos e grandes açudes e barramentos espalhados por toda a paisagem prestando serviços ecossistêmicos através da armazenagem de volumes de água durante os eventos de chuvas que são liberados na medida da necessidade em épocas mais secas. Esta infraestrutura tem garantido ao longo de pelo menos 100 anos o desenvolvimento de uma cadeia produtiva que contribui de forma significativa para a economia dos municípios da região. O Arroz Irrigado tem sido uma das mais importantes atividades econômicas desde o início do século XX para a região que hoje em dia é responsável por 30% da produção do Rio Grande do Sul e por mais de 20% do arroz consumido no Brasil.

Complementam este cenário uma infraestrutura de canais de drenagem e irrigação construída para apoiar o manejo de água para irrigação sendo praticamente todo este investimento das armazenagens e distribuição de água realizado de forma privada por cada agricultor ou grupo destes durante este período.

Os mais antigos moradores de nossa região afirmam com muita convicção que a Fronteira Oeste historicamente produtora de carne e lã melhorou muito a sua Agropecuária com a introdução desta infraestrutura hídrica construída pelos arrozeiros, pois nos verões secos se perdia muitas cabeças de gado impactando na produtividade dos rebanhos. Mesmo tendo sido construídos com foco na lavoura de arroz, a infraestrutura hídrica beneficiou sobremaneira a produção pecuária considerando que os açudes, canais e as próprias lavouras de arroz distribuídos na paisagem, proporcionam importante acesso à água de qualidade para as criações durante os períodos críticos de seca em nossa região.

Aprendemos muito até aqui de como manejar a disponibilidade hídrica de nossa região em proveito de nossa qualidade de vida, mas com certeza temos muitos desafios pela frente para seguir trabalhando no sentido de garantir que estes recursos naturais continuem a satisfazer necessidades das atuais e futuras gerações.

Seja o primeiro a avaliar!


Adicionar aos favoritos

22 ago 2018


Por Ivo Mello
Anuncie